GOVERNO PRETENDE REDUZIR AS AULAS DE LÍNGUA PORTUGUESA E MATEMÁTICA DAS GRADES CURRICULARES


27/09/2011 – às 12h54
Proposta de redução da carga horária será apresentada às escolas. Pelo projeto, haverá aumento das cargas horárias de outras disciplinas.

O Governo de São Paulo anunciou um projeto de mudança do componente curricular para o Ensino Médio das escolas públicas de São Paulo, cuja implantação se daria já em 2012. O projeto prevê a redução da carga horária de duas disciplinas que possuem as maiores cargas horárias de ensino: Português e Matemática. Pelo projeto, a redução ocorrerá para a inclusão de mais aulas para outras disciplinas como espanhol, física e sociologia.

Ainda de acordo com o projeto, os alunos do último ano letivo do Ensino Médio optariam por ênfase em uma área. Assim, o aluno poderia escolher entre linguagem, matemática e ciências da natureza ou, ainda, ciências humanas.

Para Ocimar Alaverse, professor da Universidade de São Paulo, essa decisão é precoce, pois o jovem precisa ter mais embasamento nos conhecimentos gerais. O professor não vê problemas na redução da carga horária das disciplinas, pois considera ser suficientemente alta a quantidade de aulas de ambas as disciplinas.

Por outro lado, Carmen Sylva Vidigal Moraes, também docente uspiana, vê com cautela essa proposta. Ela diz que o ideal seria haver aumento na proposta de horas/aula sem haver redução nas cargas horárias letivas, ou, em bom português, o estado deveria proporcionar aumento na jornada letiva.

Distribuição das aulas

Tanto Português como Matemática possuem as duas maiores quantidades de aulas na semana. No período matutino, o aluno assiste, atualmente, 560 aulas ao longo do Ensino Médio. Com a nova proposta, seriam 440 aulas assistidas caso o aluno opte, no último ano letivo (3º Ano do E.M.), por ênfase em linguagem, uma redução de 120 aulas (ou 20% menos). Se o aluno optar por ênfase em Matemática, ele assistirá 400 aulas de Matemática e, para as Ciências Humanas, serão 360h/aula.

Alguns colégios particulares, a carga horária de português (língua e literatura) chega à soma de 600 h/aula em todo o Ensino Médio. Isso equivale a 200 horas anuais somente para a disciplina de Língua

>>Opinião<<
O desafio do Ensino no Brasil

De fato, a possibilidade de adequação da matriz curricular para uma determinada área é positiva, desde que o aluno tenha a maturidade para isso. Mas, pelo que se pode observar no Ensino público brasileiro, só há motivos para preocupação. Somos um país cujos índices de analfabetismo deram lugar a uma nova variação deste problema: o analfabetismo funcional. Somente na região metropolitana de Campinas (SP), são 87 mil analfabetos funcionais segundo dados do IBGE (noticiado em http://www.rac.com.br/institucionais/correio_escola/2011/09/08/96951/analfabetismo-funcional-e-desafio.html). Pode parecer um dado pequeno frente ao universo de habitantes em território brasileiro (190 milhões/hab), mas é muito alto, pois a população economicamente ativa (classe trabalhadora) é bem inferior ao número de habitantes.

Além desse fato, os dados do MEC mostram uma realidade preocupante. O IDEB (Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico) mostra um avanço na realidade escolar, mas ainda muito aquém do ideal. Veja, abaixo, a tabela:

No Ensino Médio, observe bem, os índices chegam a ser inferiores aos observados no Ensino Fundamental (tanto nas séries iniciais como nas finais). Além disso, outro dado a ser verificado, é a diferença gritante entre o ensino público e o privado. O Ideb observado nas escolas privadas (média nacional) é de 5,6 no Ensino Médio; nas escolas públicas, esses índices não chegam a 4,0, embora as cargas horárias em muitas escolas sejam próximas.

No Estado de São Paulo, a média das escolas públicas, como mostra o quadro acima, é de 3,6 (0,2 pontos acima da média nacional). Considerando que a média fixada como ideal pelo MEC é 6,0, percebe-se que o desafio é imenso, levando em consideração os problemas atrelados ao ensino público no Brasil e em São Paulo, que conta diversos problemas, entre eles, a falta da mão-de-obra docente na rede estadual de ensino (muitos professores estão se afastando por diversos problemas: por motivos de saúde, por insegurança, entre outros – digo isso por experiência própria, pois, como professor, vivenciei, por intermédio de colegas da rede pública, a insegurança em dar aulas no setor público. Além disso, muitos colegas se queixam dos salários observados na rede pública estadual).

Mas, agora, uma novidade paira nos ares do ensino público paulista: a diminuição das aulas de Língua Portuguesa e Matemática. Essa situação não seria preocupante se o nível de ensino estivesse entre os melhores do mundo, mas dadas as circunstâncias da qualidade de ensino no Brasil, essa notícia é de deixar qualquer um preocupado. Ainda mais sabendo que a Secretaria Estadual de Educação pretende reduzir a carga horária das duas disciplinas consideradas, pelos alunos, como as mais complexas (justamente porque eles têm dificuldades) – prova da secretaria aponta que 38% estão abaixo do esperado em português e 58% em matemática (Folha de SP, 27/09/2011). Um número altíssimo para os padrões que o MEC pretende vislumbre índices de 6,0 pontos para o Ideb, ainda mais levando em consideração a proposta de mudança pela Secretaria de Educação.

Além de todos esses dados e agravantes, observe, ainda, outro fator importante: os índices do Ideb não mostram a distinção entre as escolas públicas e as escolas técnicas (públicas). Sabe-se que as escolas técnicas têm notória diferenciação entre as escolas públicas regulares (inclusive, isso fica evidenciado pelas notas do ENEM). Desta maneira, não há como dizer se os índices do Ensino Médio sejam melhores ou piores, existindo apenas suposições, dadas as realidades do ensino brasileiro.

Faço minhas as palavras da Profa. Carmen Sylva Vidigal Moraes: Por que, toda vez que se tem de aumentar algumas disciplinas, se fala em retirar outras? Digo isso por um motivo simples e que é palco de diversas promessas de campanhas eleitorais: ensino público de qualidade em tempo integral – uma promessa feita, inclusive, na primeira vez em que o Exmo. Sr. Governador Geraldo Alckmin foi candidato ao cargo por ele ocupado pela segunda vez (dois mandatos inteiros como governador por pleito popular e uma vez como governador após o falecimento de Mário Covas – um total de 10 anos, considerando o tempo do atual mandato).

Assim, cabe a seguinte reflexão: Por que não implantar à Rede Pública o ensino integral e tentar melhorar as condições do ensino público?

POR
>>>IGOR DIAS

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