PRECONCEITO LINGUÍSTICO: UM MAL SEM PRECEDENTES


>> SÉRIE REDATOR
Volume I – PRECONCEITO LINGUÍSTICO: UM MAL SEM PRECEDENTES
por Igor Dias

Intrigante. Ainda que no início de minha leitura sobre preconceito lingüístico, posso concluir que este assunto “dá pano pra manga”. A temática do livro de Marcos Bagno é mais atual, e antiga, do que muitos pensam, tendo diversas variáveis a serem consideradas.

Talvez por ser tão pouco difundido, seja algo de difícil assimilação ou aceitação no meio sócio-cultural brasileiro. Contudo, tal discussão deve ser, no mínimo, trazida à tona.

Assim, para dar início a nossas discussões, pensemos: como se dá o preconceito lingüístico?

Ao se analisar a variedade lingüística, a situação sócio-cultural brasileira, entre outros fatores, é possível se verificar essa questão. E o interessante é observar que Monteiro Lobato, renomado autor da Literatura Brasileira, já pontuava essa realidade anos atrás, nos primórdios do século XX. Em seu livro, “Emília no país da Gramática”, Lobato, por meio de personagens consagrados pela literatura infanto-juvenil, faz uma profunda análise a respeito da distinção entre a Língua, bioma recheado e diverso, além de vivo e mutante, e a Gramática, sistema normativo, engessado e não renovável.

[…] Uma língua não para nunca. Evolui sempre, isto é, muda sempre. Há certos gramáticos que querem fazer a língua parar num certo ponto, e acham que é erro dizermos de modo diferente do que diziam os clássicos.

– Quem vem a ser clássicos? Perguntou a menina [Narizinho]

– Os entendidos chamam de clássicos aos escritores antigos, como Pe. Antônio Vieira, Frei Luís de Souza, o Pe. Manuel Bernardes e outros. Para os carrancas, quem não escreve como eles está errado. Mas isso é curteza de vistas. Esses homens foram bons escritores no seu tempo. Se aparecessem agora seriam os Se aparecessem agora seriam os primeiros a mudar ou a adotar a língua de hoje, para serem entendidos. A língua variou muito e sobretudo aqui na cidade nova. Inúmeras palavras que na cidade velha querem dizer uma coisa aqui dizem outra. Borracho, por exemplo, quer dizer bêbado; lá quer dizer filhote de pombo — vejam que diferença! Arrear, aqui é selar um animal; lá, é enfeitar, adornar.

[…] Também no modo de pronunciar as palavras existem muitas variações. Aqui, todos dizem Peito; lá, todos dizem Paito, embora escrevam a palavra da mesma maneira. Aqui se diz Tenho e lá se diz Tanho. Aqui se diz Verão; lá se diz V’rao.

— Também eles dizem por lá Vatata, Vacalhau, Baca, Vesouro — lembrou Pedrinho.

— Sim, o povo de lá troca muito o V pelo B e vice-versa.

(Lobato, 1934)

Repare que esta concepção data de 1934, 78 anos atrás. E, nisso tudo, é interessante perceber que, mesmo decorridos tantos anos, as mudanças ocorridas no processo lingüístico-cultural foram praticamente nulas, dada a importância dada à Gramática. Lobato mostra que a língua é viva, repare: Uma língua não para nunca. Evolui sempre, isto é, muda sempre. Como podemos conceber, assim, que a Gramática, algo superficial e pouco evolutivo, tenha tanta influência nas concepções de Língua e linguagem?

Outro relevante fator a ser dito, ainda, é a distinção existente entre a língua falada em Portugal e a falada no Brasil. Como falantes, faz-se necessário que pensemos na língua como ela realmente é. Em outras palavras, os padrões de fala adotados em Portugal são bem diferentes dos adotados aqui. Isso fica nítido ao se observar as falas dos falantes. Os sotaques, os meios articulatórios de pronunciação das palavras, entre outros mecanismos linguísticos existentes no País do Futebol são bem diferentes daqueles que são verificados na Terra do Fado. Desta forma, dizer que o português camoniano é assassinado ao se contrastar com os padrões de fala existentes no Brasil é um verdadeiro despautério. Até porque, quem adota este pensamento, deixa de lado as variantes lingüísticas, algo tão consistente quanto o mais refinado metal.

Desconsiderar, pois, estas variantes, é renegar um mecanismo importantíssimo e que possibilitou a existência da Língua Portuguesa. Afinal, o Português, assim como algumas outras línguas, é derivado do Latim justamente por este mecanismo de variação linguística. E repare bem, o Latim, por mais forte que tenha sido o Império Romano, não resistiu à sua própria evolução, tendo se transformado em línguas distintas e ricas, cuja origem é perpetuada em termos e, ainda, nos radicais das palavras existentes no contexto lexical (isso mesmo com o forte processo de empréstimos de termos e palavras de línguas como o inglês, por exemplo).

E, pasmem, estas variações lingüísticas não estão presentes apenas numa superfície, mas em todo o processo de cultura que perpetua uma língua. Os processos de redução de algumas palavras, no aspecto fonológico, por exemplo, é motivo suficiente para se verificar e estudar, contudo, poucos o fazem. Veja, por exemplo, as palavras que terminam em ele (L), como papel. No Brasil, a pronúncia desta consoante é praticamente nula, exceto em algumas regiões muito pontuais do país, como no sul do país. Na maioria do país, os falantes tendem a reduzir o som desta consoante, transformando-a numa semi-vogal (/pap’ew/ – transcrição fonética da palavra papel), coisa que, mesmo nos mais recentes compêndios gramaticais, é desconsiderado pela maior parte dos gramáticos.

Continua…

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s